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Jornalismo – quase – moribundo

Sabem quando você tem certeza que aquele dirigente é corrupto, mas ainda não possui a prova material suficiente para veicular? Desistir? É aí que entra o jornalismo investigativo. Aliás, cadê ele?

10/10/2017 às 06:22

Enquanto jornalista que trabalha com opinião, talvez a angústia mais forte e frequente que vivo é: saber que um dirigente, um político, um companheiro de profissão – há misturas inacreditáveis entre dois ou todos esses itens – é completamente corrupto, um crápula, mas, por não ter provas materiais suficientes, não poder construir determinada análise em cima destes fatos – que seriam primordiais para que ela estivesse num nível ideal de contato com a verdade, tendo em vista a natureza do objeto apreciado. Quando isso ocorre, invariável, e às vezes momentaneamente – porque o bom jornalista precisa buscar soluções, apurar –, somos obrigados a tergiversar. Falar platitudes. Não defender, exaltar, passar a mão na cabeça. Nunca! Não tocar no ponto central, porém. E isso já faz com que eu me sinta um mer**...

Experienciar esse tipo de dilema provoca a sensação de impotência. Mas e aí? Como proceder a partir de então? Cairíamos numa espécie de aceitação, conformismo? O discurso acima embasaria, ainda que não intencionalmente, quase que um tipo de renúncia? Não! Como jornalistas, conhecemos incontáveis ladrões no esporte, na política – de novo: integrantes de ambas as “bancadas”... E se até por questões legais precisamos de alguns amparos para veicular essas verdades, ao invés de desistir de fazê-lo, deveríamos cultuar a combalida, maltratada, quase inexistente matéria-prima do nosso ofício: o jornalismo investigativo.

Há um movimento que me soa pouco estratégico, até do ponto de vista comercial, acontecendo nas redações: com a crise financeira – e existencial, de relevância... – assolando inúmeros veículos, os primeiros cortes quase sempre têm se voltado para o núcleo de matérias frias, mais pensadas, mais investigativas. Uma pena sob o prisma ético e intelectual; um tiro no pé, talvez, no bolso de muitos que só nisso pensam.

A internet oferece movimentação constante de conteúdo. Acesso infinito a notícias mais “básicas”. No caso do futebol, por exemplo, os próprios clubes cada vez mais limitam a entrada nos espaços do seu dia a dia. Ao mesmo tempo, em suas TVs/sites próprios, abastecem os torcedores com pílulas acerca do “noticiário” mais mundano: como foi o treino – num discurso quase sempre, óbvio, esterilizado, insosso, parcial... –, quem se machucou, quem está suspenso, quando será a viagem...

E a opinião? “Especialistas” inundam a internet com ela o tempo todo. Quantidade total. Qualidade zero. Conforme já escrevi aqui há muito tempo: Umberto Eco; redes sociais; voz para idiotas – quem quiser, é só procurar; estas minhas colunas estão disponíveis...

Ora... Se o factual mais básico vira domínio público hoje facilmente, e o que mais se vê são achismos epidêmicos completamente desamparados de um arcabouço intelectual minimamente digno de nota, tudo isso frequentemente até de modo independente do trabalho da imprensa, em que esta última deveria apostar? Pelo menos em boa medida – afinal, não sejamos Pollyanna Moça; a ignorância humana, a sede de boa parte do público pelo ruim... –, em análises mais densas e jornalismo investigativo. Para este último, indispensável é a expertise, o tempo de dedicação, a paciência, o conhecimento de fontes e técnicas num sentido bem próprio de quem milita na profissão; não é qualquer adolescente espinhento fake escondido atrás de um escudo de clube que, do nada, do seu quartinho, vai descobrir as falcatruas de um Nuzman, um Marco Polo Del Nero – e olha que são muitas e eles nem sempre as escondem tão bem... E revelações desta natureza são as mais importantes que a imprensa esportiva DEVERIA fazer.  

Por essas e outras, para ser verdadeira e plenamente relevante nos tempos de Internet, o jornalismo há de voltar suas asinhas para aquilo que sempre esteve na sua origem, e há muito encontra-se quase perdido: jornalismo é dizer aquilo que certos personagens/protagonistas não querem ouvir; jornalismo é desapegar-se da tara de ficar amiguinho de todo mundo e ter livre acesso a boquinhas mil para parecer “importante”; é apurar com cuidado, qualidade, profundidade; é priorizar o que interfere realmente na vida da população, no poder de determinado meio – em suma, ter o interesse coletivo como crivo indispensável. Hoje, na mídia esportiva, mais comum do que estes valores corretos, é a crença de que um suposto e/ou bobo furo – de algo um tanto inútil (por certo prisma) e/ou que chegou e/ou chegaria ao público de qualquer forma poucas horas depois – é o ápice do acerto na profissão. Patético, mas real: profissional da velha – ou da nova – guarda mendigando furos, ou melhor, tentando invocar pioneirismo inexistente por “notícias” “importantíssimas”, para lá de edificantes: “fulano talvez será o diretor de futebol do clube X”; “eu que dei primeiro!”. Há também os que seguem perfis obscuros de twitter – contas pouco seguidas e de outras praças –, roubam determinada informação e, dentro da própria aldeia, a distribuem como se ele fosse o grande descobridor, sem dar o crédito – e sem sequer checar se aquilo procede...

Tempos difíceis. Fala-se em fake news o tempo todo. E quando a mídia tradicional não contribui ativamente para essa mazela, muitas vezes o faz indiretamente ao não apoderar-se, ao não incentivar, ao, acima de tudo, não praticar o verdadeiro antídoto para ela: jornalismo investigativo/combativo/responsável; com profundidade e nível intelectual.

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